Para onde vão os quilos ganhos na gravidez?
A maior parte não é gordura, e essa costuma ser uma informação tranquilizadora. Numa gestação de termo, o bebê responde por algo em torno de três quilos e meio; a placenta, cerca de setecentos gramas; o líquido amniótico, oitocentos; o útero aumentado, aproximadamente um quilo; as mamas, entre meio e um quilo. Há ainda o aumento do volume de sangue, perto de um quilo e meio, e a retenção de líquido nos tecidos, outro quilo e meio. Somando tudo isso chega-se a quase dez quilos que se desfazem no parto e nas semanas seguintes. As reservas de gordura acumuladas, entre dois e quatro quilos, existem por uma razão fisiológica: sustentar a produção de leite no puerpério.
Estou ganhando mais que o recomendado. O que devo fazer?
Levar ao pré-natal, e não iniciar restrição por conta própria. Ganho acima da faixa é um dado que merece conversa, e a conduta adequada envolve avaliar alimentação, atividade física possível, retenção de líquido e rastrear diabetes gestacional — coisas que dependem de exame e de acompanhamento, não de comer menos. Cortar calorias durante a gestação pode comprometer o aporte de nutrientes essenciais para o desenvolvimento e não é recomendado nem em quem começou a gravidez com obesidade. Vale lembrar também que a balança em casa varia com horário, roupa, aparelho e retenção de líquido, e que uma pesagem isolada acima da faixa não significa muita coisa; o que informa é a curva ao longo das semanas.
Posso emagrecer durante a gravidez?
Perda de peso intencional não é indicada na gestação, em nenhuma faixa de índice de massa corporal. Mesmo quando a gravidez começa com obesidade, a recomendação é ganhar menos, dentro de uma faixa específica, e não perder — porque a restrição energética afeta o aporte de nutrientes num período de formação e está associada a desfechos piores. Alguma perda no primeiro trimestre acontece com frequência por náusea e vômito, e nesse contexto não é considerada intencional; ainda assim merece ser mencionada na consulta. Se a preocupação com peso e comida estiver ocupando muito espaço, esse é um assunto que o pré-natal precisa saber, porque existe acompanhamento específico e ele muda a experiência da gestação.
Ganhei pouco peso. Isso é um problema?
Depende do contexto, e a resposta não é automática. Ganho abaixo da faixa está associado a maior chance de o bebê nascer pequeno para a idade gestacional e de trabalho de parto prematuro, o que torna o dado relevante — mas ele não decide nada sozinho. No primeiro trimestre, ganho pequeno ou até nenhum é comum, principalmente com náusea intensa, e o crescimento se concentra mesmo é a partir da segunda metade. O que o pré-natal observa é o conjunto: a curva de ganho, o crescimento do útero, os ultrassons e como você está se alimentando. Náusea e vômitos que impedem alimentar-se merecem atenção específica, porque existe tratamento e não precisa ser suportado em silêncio.
Por que a faixa recomendada depende do IMC antes da gravidez?
Porque as reservas com que a gestação começa mudam quanto precisa ser acumulado durante ela. Quem inicia com baixo peso tem menos reserva disponível para sustentar o crescimento fetal e se beneficia de um ganho maior; quem inicia com sobrepeso ou obesidade já dispõe de parte dessa reserva, e ganhos menores se associam a menos complicações sem prejuízo para o bebê. As faixas mais usadas hoje foram estabelecidas em 2009 a partir de dados que relacionaram ganho gestacional com desfechos, e são adotadas como referência em boa parte do mundo, inclusive no Brasil. Elas descrevem probabilidades em população, não regras individuais — por isso são faixas largas, e não números.