O nascimento dos dentes causa febre?
Não causa febre de verdade, e essa crença tem uma consequência prática que preocupa: ela faz famílias atribuírem à dentição sintomas que precisariam de avaliação, adiando diagnósticos. Estudos que acompanharam bebês diariamente durante a erupção encontraram, no máximo, elevações mínimas de temperatura, bem abaixo do limiar de febre. O que a dentição realmente costuma provocar é irritabilidade, salivação aumentada, vontade de morder objetos e gengiva sensível ou levemente inchada no local. Febre, diarreia, vômitos, tosse e recusa alimentar importante não são causados por dentes nascendo — coincidem com essa fase porque é justamente quando os anticorpos maternos diminuem e o bebê começa a levar tudo à boca.
Meu bebê ainda não tem dentes. É normal?
Provavelmente sim, porque a variação normal é bem maior do que a maioria imagina. O primeiro dente pode aparecer aos quatro meses ou só depois do primeiro aniversário, e ambos os extremos podem ser perfeitamente saudáveis. O que importa mais que a data é a sequência: os dentes costumam nascer numa ordem previsível, começando pelos incisivos centrais de baixo. Existe também um componente familiar — se os pais demoraram, o bebê tende a demorar. A referência usual para investigar é a ausência de qualquer dente por volta dos dezoito meses, situação que merece avaliação odontológica, geralmente sem que se encontre problema algum.
Pomadas para gengiva e colar de âmbar ajudam?
Nenhum dos dois deve ser usado, e os motivos são de segurança, não de eficácia. Pomadas com anestésicos locais como benzocaína foram associadas a uma alteração grave do sangue que reduz o transporte de oxigênio, levando agências reguladoras a desaconselhar seu uso em bebês; além disso, a anestesia da gengiva pode atrapalhar a deglutição. Colares de âmbar somam dois riscos concretos e bem documentados: estrangulamento, quando o colar prende em algum lugar, e engasgo, quando arrebenta e as contas se soltam — mortes já foram registradas. Não há evidência de que liberem qualquer substância analgésica. O que funciona é simples e seguro: mordedor resfriado na geladeira, massagem na gengiva com o dedo limpo e objetos próprios para morder.
Quando começar a escovar e usar pasta com flúor?
A escovação começa quando nasce o primeiro dente, com escova pequena de cerdas macias e duas vezes ao dia, incluindo obrigatoriamente antes de dormir. A pasta deve conter flúor desde o início, porque é ele que previne cárie — o cuidado está na quantidade, não na presença. Até os três anos, a orientação é usar o equivalente a um grão de arroz cru, quantidade pequena o bastante para ser segura mesmo que o bebê engula. Depois disso, passa a ser o tamanho de um grão de ervilha. Pastas sem flúor não protegem contra cárie e não são a escolha adequada, e a cárie na primeira infância pode ser agressiva e dolorosa.
Quando é a primeira consulta com o dentista?
A recomendação corrente é que aconteça até o primeiro aniversário, ou dentro de seis meses após o nascimento do primeiro dente — o que vier antes. Essa consulta precoce não é sobre tratar nada: é orientação sobre higiene, hábitos alimentares, uso de mamadeira e chupeta, e identificação de risco de cárie antes que ela apareça. Vale saber que atendimento odontológico infantil está disponível pelo SUS, na atenção básica. Um hábito específico merece atenção desde cedo: mamadeira com leite adoçado ou suco na hora de dormir, sem higiene depois, é uma das principais causas de cárie precoce, porque o líquido permanece em contato com os dentes durante toda a noite.